A escrita
é, na maior parte das vezes, um processo solitário na esperança do encontro.
Quem recebe a árdua tarefa de escrever sabe bem que, por não poucas vezes, tem
de prescindir a muitas coisas em busca de uma só. Tem de despojar-se para se
encontrar e ir ao encontro do seu potencial leitor. Tem de dialogar para que a
luz seja possível. Tem de contemplar para que o outro contemple também.
A
contemplação é constituinte da vida. Seja para os que hoje escrevem, como para
os que amanhã se tornarão leitores do que se escreve. Contudo, é certo que a
contemplação não se restringe à escrita. Na contemplação inscreve-se o desejo do
olhar, do ver. A vontade de se deixar surpreender e arrebatar pelo que se
contempla.
Escrevo
hoje sobre a contemplação porque o dia de ontem foi um perfeito exercício
contemplativo. Tanto na celebração eucarística, com a confiança que devemos ter
na oração dirigida ao Pai, como no passeio que fomos convidados a fazer este
domingo.
Saímos de
Trogir pouco depois das 9h em direcção ao Parque Nacional de Krka. Ao longo do percurso
tivemos a oportunidade de contemplar a paisagem. Umas vezes agreste e rude nas
suas formações rochosas, mas também serena no azul-turquesa do mar.
A viagem
demorou duas horas e ao sairmos dos autocarros começamos a percorrer um dos
itinerários possíveis dentro deste parque com 109 km2.
Surpreendeu-me pela grande variedade de plantas existentes. Falava-se em 860
espécies. Confesso também que fiquei deliciado com o odor que incontáveis figueiras
(carregadas de figos!) exalavam. Algo que despertou em mim memórias antigas de
infância. Em casa da avó Teresa tínhamos enormes figueiras que em tempo
oportuno faziam as minhas delícias. As minhas e as de todos lá em casa!
Os peixes
- pequenos e grandes - nas águas cristalinas como que nos seguiam por entre
passadiços e pontes ao longo do caminho. Era vê-los resistir com destreza à
força das correntes que rapidamente aumentavam de caudal.
As
admiráveis paisagens, cujos verdes se retocavam pelos brancos das cascatas,
permanentemente exigiam a nossa atenção. Alguns irmãos - embora poucos - se
aventuraram por entrar nestas águas em busca de um banho refrescante.
Após o
almoço em restaurante local seguimos para a visita ao convento franciscano
implantado na pequeníssima ilha de Visovac. Desde o século XV que se conhece
presença religiosa nesta ilhota. Primeiro os agostinhos e a partir de
quinhentos os seguidores do santo de Assis.
No
pequeno cais, dois barcos para a travessia do rio em direção à ilha. Na chegada,
o prior esperava-nos e com ele um pequeno grupo de noviços. Informaram-nos,
entretanto, que nestes últimos quinhentos anos este convento se mantém como
casa de noviciado. Admirável! Fomos muito bem recebidos e tivemos a
oportunidade de desfrutar, mesmo que por pouco tempo, da paz que se respira e
da beleza que nos envolve.
O
regresso à terra firme foi acompanhado por um misto de alegria e de adeus.
Alegria fraterna entre nós que estávamos bem dispostos e de adeus aos frades franciscanos
que ficavam na ilha e que dificilmente algum dia voltaremos a ver.
O fim da
nossa jornada caminhava a passos largos e a última etapa era a visita à
Catedral de Šibenik (Trogir
faz parte desta diocese), cujo bispo nos esperava para dar-nos as boas vindas
e apresentar um pouco da história da cidade, da catedral e das boas relações
com os dominicanos.
O
regresso a casa fizemo-lo já com as tonalidades douradas do mar pelo sol que
lentamente se punha no horizonte. Da contemplação deste dia veio-nos a paz e a alegria de viver!


Sem comentários:
Enviar um comentário