quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Imaginação, criatividade e liberdade

Provavelmente seja esta a última crónica que escrevo durante o tempo do Capítulo. Além dos problemas técnicos (falhas frequentes da internet), o tempo tem sido muito reduzido para sentar e escrever, assim como a disposição interior.
A experiência de um Capítulo Geral marca-nos a vários níveis. Pelo convívio com irmãos de todo o mundo, pela troca de informações sobre o estado da Ordem, pela partilha de vida na oração e nos momentos de lazer.
Mas um Capítulo marca-nos também pela exigência. A exigência de estarmos três semanas numa mesma casa, reunindo-nos para debater propostas, defender ideias e procurarmos juntos, apesar das condicionantes linguísticas e culturais, pontos comuns de convergência para a missão. E este aspecto não é, de forma alguma, uma questão menor.
Valorar a diversidade como uma riqueza e como um dom, coloca sérias dificuldades no exacto momento em que somos interpelados a colocarmo-nos de acordo. 
A variedade dos nossos hábitos brancos, seja nos tamanhos, nas tonalidades, nos tecidos utilizados, ou até mesmo na forma de os costurar, pode bem recordar-nos que cada um de nós é único e que cada um é estimulado a oferecer muito de si para a missão, que todos somos chamados a realizar.
Este tempo de combate, sempre necessário, é o desejo profundo de alcançar um caminho comum. Não comum porque seja usual ou habitual, mas porque se deseja que o caminho seja feito em comunhão. Seja o arriscado caminho que se trilha na selva amazónica para anunciar a Boa Nova, seja o caminho solitário que a leitura e interpretação de documentos antigos pede, seja - porque não dizê-lo? - percorrer os caminhos de uma paróquia para ir ao encontro dos que se sentem longe de nós.
É por este caminho que aqui estamos e é por este mesmo caminho que animamos os nossos irmãos e irmãs a seguir.
O Capítulo está nas suas últimas horas, mas falta ainda a confirmação do texto sobre a Pregação que nos ocupará todo o dia de amanhã. Pode ser o último, mas como bem gostam os ingleses de dizer: The last but not the least (o último, mas não o menos importante). Na verdade, que outro modo teríamos de celebrar São Domingos - Pregador da Graça - senão com a aprovação do documento que nos desafia a renovar, com imaginação, criatividade e liberdade a nossa pregação?


P.S.: Posso também informar que os capitulares votaram esta tarde o local para a realização do próximo Capítulo Geral que acontecerá no verão de 2016 (ano do Jubileu da Ordem). O lugar escolhido é o nosso Convento de Bolonha (Itália), onde está sepultado São Domingos.
Bem-haja aos nossos irmãos de Bolonha!

domingo, 4 de agosto de 2013

Festa em Trogir

Conto os dias para voltar a casa. Não porque não goste de estar aqui com os irmãos do mundo inteiro, mas porque sei que é impossível ficar indefinidamente e porque estou saturado de melancias! Nunca pensei na vida ver tantas melancias! É ao pequeno-almoço, ao almoço e ao jantar... Creio até que já sonho com melancias! Podem imaginar as piadas que entre nós frades surgiram a propósito... como a fruta oficial do Capítulo!
Mas não é sobre particularidades gastronómicas que pretendo escrever, embora possam surgir algumas entretanto, porque numa refeição com gente de diversas proveniências e culturas é mais do que expectável que aconteça. A não ser que fôssemos monges com voto de silêncio... o que não é o caso!
Na verdade somos muito faladores! E cada um se defende na língua que pode! Podem pensar em Babel, no episódio bíblico da confusão das línguas (cf. Gn 11,1-9), mas eu acredito mais na força amorosa de Pentecostes! (cf. Act 2,1-12)
Ainda ontem, na parte da tarde, fomos ao centro da cidade de Trogir, para a celebração festiva do beato Agostinho Kažotić (nascido nesta cidade em 1260, frade dominicano e nomeado em 1303 bispo de Zagreb. Destacou-se pelo seu grande amor aos pobres e morreu na cidade italiana de Lucera em 1323). A celebração presidida pelo actual Cardeal de Zagreb foi concelebrada pelo bispo de Šibenik e o arcebispo de Split-Makarska.
A esta Eucaristia acorreu muita gente local, mas também estrangeira e não me refiro apenas aos frades, porque a praça diante da Igreja, onde decorreu a cerimónia, é muito próxima ao ancoradouro dos barcos e das muitas esplanadas, repletas de turistas, que fazem as suas delícias.
A língua utilizada naturalmente foi o croata (servo-croata para ser mais preciso) e algumas vezes, para não ficarmos sem entender nada, umas palavras em francês que amavelmente o nosso irmão, Provincial da Croácia, nos dirigia.
Mas mesmo não entendendo o croata, atrevia-me a cantar as canções cujas melodias me eram familiares e seguia religiosamente o guião que nos fora distribuído antes.
A festa prolongou-se nos claustros do convento, por sinal muito antigos (o convento começou a ser construído cinquenta anos depois da confirmação da Ordem em 1216), com os "comes e bebes" merecidos depois de duas horas de celebração!
Muita animação entre nós! Os frades latino-americanos com as suas canções cheias de ritmo agitavam os ares quentes que corriam pelos claustros e as várias irmãs dominicanas animavam a festa com os seus risos! Um dia em cheio!
Mas já agora... durante este jantar volante dei por falta de uma coisa e como eu outros irmãos também notaram. Faltavam inexplicavelmente as travessas com as melancias!!!




sábado, 3 de agosto de 2013

Ouvir, Falar, Amar

Estar um dia acordado, depois de uma noite de insónia, não é tarefa fácil, sobretudo quando o dia é preenchido com reuniões onde o debate, as sugestões de emendas e as votações, pedem a nossa máxima atenção. Este foi o meu dia de anteontem!
A razão da insónia pode estar no café que tomei depois do jantar, mas creio que não justifica a noite em claro. Na verdade, podemos procurar mil e uma razões para dormir, mas se o nosso coração está inquieto, como se estivesse em vigília à espera de uma boa notícia no romper da aurora, esqueçam todas as justificações para dormir.
Que o nosso coração se inquiete, porque espera, é normal. Se não fosse assim, não conseguiríamos acolher a experiência do encontro. Obviamente não me referido apenas ao encontro presencial ou físico, mas sobretudo ao desejo de estar com.
Quando passamos um tempo sem sabermos dos nossos familiares ou amigos, é natural que o nosso coração se interrogue e busque para si uma luz que o ilumine e o alimente na esperança.
O amor que o nosso coração transporta (Cf. Rm 5,5), ou dito de outra forma, a linguagem que o nosso coração é capaz de conceber para expressar o amor é fundamental na nossa vida. Seja esta linguagem, paradoxalmente, uma insónia, um abraço ou uma simples SMS!
Apesar de estarmos distantes geograficamente, sentimo-nos próximos de quem amamos. Sentimo-nos próximos daqueles por quem temos compaixão. E não uso aqui o termo compaixão no sentido de piedade ou comiseração. De facto, compaixão é o mesmo que ter um sofrimento comum, isto é, sofrer com. A palavra paixão evoca esse tal sofrimento, mas também nos transporta para o amor oblativo. Para o amor que é capaz de se oferecer por si mesmo, livremente, e gerar vida! Um amor que tem tanto de criativo, como de perseverante.
E tudo isto para dizer que quem se sente no "exílio" alimenta o desejo do encontro com os que esperam no regresso! Queremos regressar, não porque queremos voltar atrás, mas porque é importante caminhar com aqueles que esperam por nós. Queremos regressar porque levamos connosco os anseios, as preocupações e as esperanças de todos! Queremos regressar, sobretudo, porque há uma Palavra que nos envia.
Esta certeza está presente em todos os textos que orientam o Capítulo. A Palavra que aqui nos reuniu, é também a que nos envia. A Palavra que nos envia a Ouvir, a Falar, a Amar!


quarta-feira, 31 de julho de 2013

De sessão em sessão

O tempo mudou da noite para o dia. Após uma noite de trovoada e alguns relâmpagos, a manhã de ontem começou bem mais fresca e a brisa vinda do mar fez-se notar durante todo o dia. Provavelmente para quem está na "praia" (quem conhece a Croácia entenderá porque coloco aspas na palavra praia...) não seja o melhor clima, mas para nós que passamos todo o santo dia em salas e de um lado a outro para rezar, comer e reunir, apreciamos muito!
Os dias desta semana resumem-se nos trabalhos das comissões e nas apresentações, para discussão e votação, dos textos produzidas pelas mesmas.
É um trabalho moroso e, de certa forma, extenuante. As discussões em comissão, tantas vezes se prolongam em sessão plenária. É necessário rever, mais do que uma vez, as proposições que cada comissão apresenta. É preciso esclarecer e precisar o que se discute e o que se vota. E tudo isto nas três línguas oficiais da Ordem (espanhol, francês e inglês).
No dia de ontem tratamos o texto apresentado pela comissão sobre Governo e restruturação da Ordem.  Como é a primeira vez que muitos de nós participamos num Capítulo Geral, sentimos alguma dificuldade no momento de intervir e participar no debate, mas rapidamente percebemos como as coisas se processam. E mesmo aqui (ou sobretudo aqui) percebemos o quão diferentes somos uns dos outros e como a Ordem se apresenta na sua rica diversidade. Há os que nunca ou quase nunca falam, mas há também os que intervêm quase sempre!
Há temas que parecem claros, mas há outros que suscitam sérios debates. E alguns, pelo que percebi, são eternas questões nos Capítulos Gerais. Penso, por exemplo, na nossa Universidade Pontifícia de São Tomás de Aquino em Roma (Angelicum) que nos últimos capítulos tem motivado inflamados discursos. E que, quando discutíamos hoje de tarde o texto proposto pela comissão para os estudos na Ordem, apareceu novamente. Na minha opinião, não se trata da importância ou reconhecimento desta instituição académica (conta com mais de mil alunos e quase duzentos professores), mas da sua viabilidade económica. Creio que esta é a questão de fundo (mesmo sabendo da premente necessidade de renovação dos cursos e dos professores).
A questão económica, abordada na manhã de hoje, permitiu esclarecimentos e foi unânime entre os capitulares o bom trabalho que nos últimos anos o Síndico da Ordem (o irmão que trata das questões económicas na nossa Cúria) tem desenvolvido.
Uma coisa é certa... Amanhã continuaremos as sessões plenárias, discutindo e votando as proposições que integrarão as Actas deste Capítulo Geral.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Contemplar para viver!


A escrita é, na maior parte das vezes, um processo solitário na esperança do encontro. Quem recebe a árdua tarefa de escrever sabe bem que, por não poucas vezes, tem de prescindir a muitas coisas em busca de uma só. Tem de despojar-se para se encontrar e ir ao encontro do seu potencial leitor. Tem de dialogar para que a luz seja possível. Tem de contemplar para que o outro contemple também.
A contemplação é constituinte da vida. Seja para os que hoje escrevem, como para os que amanhã se tornarão leitores do que se escreve. Contudo, é certo que a contemplação não se restringe à escrita. Na contemplação inscreve-se o desejo do olhar, do ver. A vontade de se deixar surpreender e arrebatar pelo que se contempla.
Escrevo hoje sobre a contemplação porque o dia de ontem foi um perfeito exercício contemplativo. Tanto na celebração eucarística, com a confiança que devemos ter na oração dirigida ao Pai, como no passeio que fomos convidados a fazer este domingo.
Saímos de Trogir pouco depois das 9h em direcção ao Parque Nacional de Krka. Ao longo do percurso tivemos a oportunidade de contemplar a paisagem. Umas vezes agreste e rude nas suas formações rochosas, mas também serena no azul-turquesa do mar.
A viagem demorou duas horas e ao sairmos dos autocarros começamos a percorrer um dos itinerários possíveis dentro deste parque com 109 km2. Surpreendeu-me pela grande variedade de plantas existentes. Falava-se em 860 espécies. Confesso também que fiquei deliciado com o odor que incontáveis figueiras (carregadas de figos!) exalavam. Algo que despertou em mim memórias antigas de infância. Em casa da avó Teresa tínhamos enormes figueiras que em tempo oportuno faziam as minhas delícias. As minhas e as de todos lá em casa!
Os peixes - pequenos e grandes - nas águas cristalinas como que nos seguiam por entre passadiços e pontes ao longo do caminho. Era vê-los resistir com destreza à força das correntes que rapidamente aumentavam de caudal.
As admiráveis paisagens, cujos verdes se retocavam pelos brancos das cascatas, permanentemente exigiam a nossa atenção. Alguns irmãos - embora poucos - se aventuraram por entrar nestas águas em busca de um banho refrescante.


Após o almoço em restaurante local seguimos para a visita ao convento franciscano implantado na pequeníssima ilha de Visovac. Desde o século XV que se conhece presença religiosa nesta ilhota. Primeiro os agostinhos e a partir de quinhentos os seguidores do santo de Assis.
No pequeno cais, dois barcos para a travessia do rio em direção à ilha. Na chegada, o prior esperava-nos e com ele um pequeno grupo de noviços. Informaram-nos, entretanto, que nestes últimos quinhentos anos este convento se mantém como casa de noviciado. Admirável! Fomos muito bem recebidos e tivemos a oportunidade de desfrutar, mesmo que por pouco tempo, da paz que se respira e da beleza que nos envolve.
O regresso à terra firme foi acompanhado por um misto de alegria e de adeus. Alegria fraterna entre nós que estávamos bem dispostos e de adeus aos frades franciscanos que ficavam na ilha e que dificilmente algum dia voltaremos a ver.
O fim da nossa jornada caminhava a passos largos e a última etapa era a visita à Catedral de Šibenik (Trogir faz parte desta diocese), cujo bispo nos esperava para dar-nos as boas vindas e apresentar um pouco da história da cidade, da catedral e das boas relações com os dominicanos.
O regresso a casa fizemo-lo já com as tonalidades douradas do mar pelo sol que lentamente se punha no horizonte. Da contemplação deste dia veio-nos a paz e a alegria de viver!


sábado, 27 de julho de 2013

Partilhar a Amizade de Deus

Durante a tarde de ontem, enquanto apontava alguns pensamentos para a crónica que imaginara redigir à noite, a internet falhou e acabei por não conseguir gravar on-line o que acabara de escrever. Como consequência fiquei sem os referidos pensamentos. Mesmo tentando refazê-los, não consegui que ficassem iguais aos primeiros. Nada de grave, mas fez-me interiorizar como cada instante na nossa vida é único, irrepetível, por mais pequeno e insignificante que possa parecer.
Devemos viver intensamente - com paixão - e não apenas viver. Isto tem implicações no nosso dia a dia, mas sobretudo na nossa forma de olhar e de amar o mundo! Trará efeitos à nossa missão como pregadores da misericórdia e da amizade de Deus.
E é por causa da nossa missão que estamos aqui... aqui em Trogir (Croácia), mas também aqui neste ciberespaço... E no dia de hoje falamos abundantemente da nossa missão. Da nossa missão com os jovens através do MJD (Movimento Juvenil Dominicano) e também através da Internet. Fiquei bem impressionado com a exposição do trabalho que neste campo a Ordem está a fazer e a projectar para os próximos tempos. Os desafios são grandes e todos somos necessários!
As comissões, durante a tarde, prosseguiram nos seus trabalhos de redacção. Algumas estão  mais adiantadas nesta tarefa por terem áreas de discussão mais concisas. Outras, como a minha sobre a Pregação, vão mais devagar... São muitos documentos para colocar em proposições ou recomendações. E os debates motivados pelas distintas experiências e visões do mundo exigem maior atenção na interpretação da vontade dos irmãos.
Um dos temas que mais nos interpela é o Processo Salamanca. Salamanca, para nós dominicanos, recorda-nos todo o esforço de compreender o novo mundo (o continente americano no séc. XVI). O diálogo entre os nossos missionários na Hispaniola (Ilha de São Domingos, de Haiti, Hispaniola ou Espanhola é uma das maiores ilhas das Antilhas, localizada no mar das Caraíbas a sudeste de Cuba e oeste de Porto Rico) e os nossos teólogos da Escola de Salamanca (como Fr. Francisco de Vitória). Deste diálogo nasceu, por exemplo, a base do novo direito internacional.
É a este diálogo entre o mundo académico e o mundo pastoral (para dizê-lo de forma simplificada) que queremos incitar toda a Ordem. Animá-la a percorrer este caminho para anunciar a Justiça e a Paz.
No dia de São Domingos (que vamos celebrar no dia 8 de Agosto com o encerramento do Capítulo Geral) a primeira leitura será do livro do Profeta Isaías (52,7-10) e escutaremos esta palavra: Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação. Estes pés que levam a boa nova são os de São Domingos, mas são também os nossos, porque desafiados pela Palavra e pela Amizade de Deus a irmos mais longe, a sermos itinerantes, para a proclamarmos!



sexta-feira, 26 de julho de 2013

O mar guarda os seus segredos

Da janela do meu quarto vejo o mar (aqui em Trogir - Croácia). Nem sempre tenho a oportunidade de olhar o mar. Para alguns será uma coisa sem importância, mas para mim não. É um privilégio! Passei uma parte significativa da vida junto ao mar. Significativa porque aconteceu numa fase de crescimento. Naquela fase em que sonhámos (na suposição de não sonharmos em todas as fases da vida), em que o olhar vai além daquilo que o horizonte encerra.
O mar guarda os seus segredos e com ele também os meus. Muitas vezes lhe segredei baixinho os pensamentos, os medos e os desejos! E em tantas outras lhe confiei as lágrimas... Sim, os homens também choram! E quantos choram junto ao mar! Choram por aqueles que um dia partiram e nunca mais viram chegar. Choram pelas palavras mal amadas que em cada dia têm que enfrentar. Choram pelas  emoções e os sentimentos que não conseguem expressar. E porque choram, estendem o coração até ao mar!
Há melancolia na onda que pacientemente toca a praia... Há melodia na palavra diluída pelo mar... Há o sussurrar do vento por entre o canavial... E há o silêncio que te convida a saborear!
Alguém se pergunta, mas porquê? Porquê dar-se a conhecer? Porquê desvelar os segredos do olhar? Porquê o fluir contido das palavras? Talvez porque me deixo tocar, embalado ao som do piano de Niall Byrne em The Promenade. Aí está o segredo... deixar-se tocar! Querer que o outro nos toque. Nos toque pela palavra, pela vida, pela presença dos seus dias nos nossos dias. E no fundo, todos sabemos que necessitamos que os outros nos toquem para nos sentirmos vivos. Para sentirmos que Deus, no seu amor, se fez humano para nos tocar.
Aquele que um dia há-de proclamar a Palavra, terá que tocar-te o coração para que se faça entender. Quem for chamado a anunciar a Boa Nova terá que sentir o bater do teu coração - como os dedos tocam as teclas do piano - para te encontrar!
Sei que hoje não escrevo uma crónica como as que tenho feito nestes últimos dias e peço desculpa por isso. Espero que acolham estas palavras na simplicidade que elas querem significar. Os que conhecem o mar... Os que para ele olharam e com ele sonharam... e os que me conhecem... as saberão receber e guardar.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Karlovacko

Sobre a mesa tenho uma Karlovacko leve e fresquinha. Sabe mesmo bem nestas horas de calor. Recorda-me aqueles irmãos com quem, em casa ou na paróquia, partilho de vez em quando uma cevada fermentada.
À minha volta, enquanto escrevo esta crónica, vários irmãos em amena cavaqueira. Risos e tantas histórias vindas do fim do mundo... Entre eles Timothy, com o seu característico cabelo desalinhado, encanta-os com o humor tipicamente inglês!
O dia de hoje é de festa porque celebrámos o Apóstolo São Tiago. Embora o acidente ontem ocorrido às portas de Santiago de Compostela, com o descarrilamento de um comboio e os consequentes feridos e mortos, ensombre a beleza deste dia. Dirijo neste instante o meu pensamento e a minha oração a todas as famílias atingidas por esta tragédia.
Pode parecer banal a muita boa gente escrever que foi mais um dia de Capítulo. Na verdade, procuro não maçar com os pormenores de todos os assuntos que numa assembleia como a nossa se discutem.
Na primeira parte do dia, em sessão plenária, os presidentes das comissões, em pouco mais de cinquenta minutos, relataram o andamento dos trabalhos nos grupos correspondentes.
No seguimento desta "breve" exposição, todos nós fomos convidados a sugerir aspectos que consideramos relevantes para a composição de um texto que servirá de prólogo às Actas deste Capítulo.
A tendência dos últimos Capítulos Gerais é oferecer textos sugestivos e pouco extensos, de forma a não repetir o que outros Capítulos disseram e nem correr o risco de banalizar o trabalho entretanto realizado.
As propostas para os prolegómenos foram abundantes como as chuvas nos períodos quentes das monções! Os espanhóis gostam de usar com frequência a expressão "lluvia de ideas"(chuva de ideias) para ilustrar as copiosas sugestões que surgem em debates como estes.
Não sei se todas as ideias serão levadas em conta pelos irmãos que hão-de ter a hercúlea tarefa de redigir a introdução das Actas. Uma coisa no entanto sei. Será um texto fundamental para nós.
Um dos momentos altos do dia foi o testemunho de dois jovens nossos irmãos cooperadores (frades que não sentiram o chamamento para serem ordenados sacerdotes, mas que querem consagrar as suas vidas no seguimento de Jesus ao estilo de São Domingos). Um dos EUA e outro do Vietname. Na ordem existem pouco mais de cem frades cooperadores. Nos últimos anos os irmãos cooperadores têm sido tema de reflexão nestas assembleias capitulares.
A parte da tarde (tudo aponta que será assim nos próximos dias) ficou reservada para a continuação dos trabalhos das comissões. As paróquias vieram novamente à colação, bem como o tema da internet e afins. Abordamos também a questão dos colégios dominicanos e as Escolas de Pregação (instâncias de formação para a Pregação).
Como serão assuntos de reflexão nas próximas jornadas... esperemos então. Para já contentemo-nos com um último gole...

Abrir novas portas

Sentado no terraço do hotel, ao som de "Vanessa da Mata canta Tom Jobim", sinto ligeiramente a brisa que percorre os caminhos por entre pinheiros e ciprestes... Durante o dia a música que mais se faz ouvir  por estas paragens provém das cigarras que neste tempo de calor não conhecem o que é monotonia.
Embalado pela frescura e a simplicidade da voz da Vanessa penso neste dia de tanta luz. A luz de um verão, para mim, tão diferente de tantos outros. Mas sobretudo a luz que trespassa pelo olhar dos irmãos, na fraternidade das palavras e na busca comum da verdade para a nossa vida.
O dia, marcado pela oração, foi passado nos trabalhos de grupos das distintas comissões. Não consigo imaginar como terão decorrido, mas posso assegurar que com muito empenho (a contar pela experiência no meu grupo). Daquilo que vou captando em muitos momentos e intuindo em outros tantos, os irmãos vivem com alegria a missão capitular. Não apenas tomam parte de uma tradição ancestral, como comprometem  aqui o seu hoje com o amanhã da Ordem.
A nossa comissão dividiu-se por grupo linguístico e distribuiu entre si os temas que devem constar do capítulo da Pregação.
No meu grupo tratamos do tema das paróquias. Falamos demoradamente e cada um partilhou o seu sentir. Opiniões que de certa forma convergem na importância que este lugar de pregação tem na nossa missão e na responsabilidade que as nossas províncias, através das suas comunidades, têm ao assumir este desafio pastoral.
Outro tema discutido, dito de forma abreviada, foi a nossa presença em internet. Tantas experiências neste campo! Algumas com grande sucesso, mas não são poucas as que nos deixam um sentimento de perplexidade. Por vezes um certo amadorismo neste campo tem efeitos contrários. Em vez de cativar, acaba por gerar anticorpos à nossa "pregação on-line". Mais uma vez se prova que não basta ter boa vontade.
Do debate surgiram algumas ideias que, em devido momento, serão colocadas à consideração dos irmãos capitulares. Amanhã prosseguiremos os trabalhos e tentaremos abrir novas portas para este  imenso mundo!

terça-feira, 23 de julho de 2013

Por mares nunca antes navegados

Os sinos da torre da Igreja tocam a repique. São sete da manhã e entra o cortejo para a celebração da Eucaristia. Celebramos a festa de Santa Brígida da Suécia, co-padroeira da Europa. A liturgia deste dia é na língua de Cervantes. Prega um irmão de Puerto Rico que, com graça, se pergunta sobre o que pode dizer um caribenho de uma mulher do norte da Europa.
A ideia forte da Liturgia da Palavra vem-nos do Evangelho de São João: Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. E pela voz do nosso irmão do Caribe chega-nos o desafio de permanecermos no Senhor, confiantes de que, mesmo na nossa pobreza, daremos frutos abundantes, tal como Santa Brígida, apesar das inúmeras vicissitudes na sua vida.
Na parte da manhã reunimos-nos para a sessão plenária. Refiro de passagem que a sala dos plenários é mesmo em frente à praia... Será que conseguem vislumbrar a imagem de cem frades de hábito branco por entre os banhistas que usufruem do mesmo espaço por onde passamos? Se isto não for evangelização... no mínimo é sacrifício! Calor e um mar cristalino convidativo e não podermos dar um mergulho!
Praias à parte... mergulhemos nos temas de hoje!
O primeiro momento da sessão foi dedicado à escuta das reacções dos vários grupos linguísticos à Relatio do Mestre sobre o estado da Ordem. Bem como ao debate das questões em torno à nossa missão, à vida comum e à planificação apostólica, quer das províncias em geral, quer das comunidades em particular. Um diálogo sempre fraterno e em espírito de interajuda.
A segunda parte consistiu na apresentação das propostas para as comemorações do Jubileu por ocasião dos 800 anos da aprovação da nossa Ordem (1216-2016) pelo Papa Honório III.
As propostas, para os próximos três anos, são deveras abundantes e criativas e colheram, por parte da assembleia, uma forte salva de palmas. Toca agora ao Capítulo debater e propor estas propostas ou outras que entretanto surjam.
Durante a tarde os trabalhos realizaram-se por comissões. Para este encontro foram pensadas oito comissões: Jubileu 2016 e renovação da missão evangelizadora da Ordem, Estudo, Formação, Pregação, Vida Comum, Governo e reestruturação, Economia e LCO (Livro das Constituições e Ordenações).
Participo na comissão sobre a Pregação. É uma comissão que trabalha em inglês e espanhol (inicialmente era em inglês e francês, mas não tendo nenhum irmão cuja língua mãe fosse o francês sugeriu-se a mudança linguística que foi bem aceite pela assembleia capitular).
Nesta comissão estão dois espanhóis (um deles é missionário na selva amazónica), um italiano (que trabalha no diálogo ecuménico em Bari e é o irmão decano no Capítulo), um alemão (leigo casado e pai de dois filhos), um mexicano (que vive e trabalha no Chile), um nigeriano, um vietnamita (leigo com uma página web que todos os dias tem mais de 10.000 visitas... sim, dez mil!), um indiano (que vive na Cúria em Roma), um paquistanês (que trabalha o diálogo com o islão) e eu!
A tarefa não se apresenta nada fácil e não é apenas por uma questão de compreender o que o irmão ao nosso lado diz. É uma comissão composta de muitos mundos. E os temas que espera abordar não são menos numerosos... A nossa presença nas paróquias (como podem imaginar é um tema que me é caro), a pregação através dos meios de comunicação social, o trabalho com os migrantes, relação entre educação e evangelização, escolas de pregação, diálogo intercultural e interreligioso, presença entre povos indígenas, pastoral nos centros urbanos, peregrinações do Rosário e devoções populares e o processo Salamanca (que consiste no diálogo entre a acção pastoral e a reflexão teológica).
Por esta simples enumeração podem antever uns dias de intenso calor humano no discernimento e na busca de uma missão comum. Contamos com as vossas orações!



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Escutar com amor

Acabamos de jantar. Uma sala repleta e mais um terraço com várias mesas. Um calor húmido, como é próprio a quem está tão perto do mar.
Para primeiro dia, posso vos dizer que foi variado e intenso. Variado pela diversidade de culturas, línguas, proveniências... Intenso pela Palavra celebrada e debatida.
O dia começou com a celebração da eucaristia na nossa Igreja de Santa Cruz que fica a dois passos do hotel. Que melhor forma teríamos nós de começar este Capítulo senão com a solenidade de Santa Maria Madalena, Apostola Apostolorum e protectora da Ordem?!
Fr. Bruno Cadoré, Mestre da Ordem, presidiu a esta celebração matutina e tocou-nos com a sua pregação, recordando o encontro de Maria Madalena com Jesus e como esse acontecimento mudou a vida desta mulher, outrora marcada pela separação, pela divisão interior e agora encontrando-se nesta alegria da missão de anunciar o Senhor.
A igreja é pequena para os que somos, mas a força da Palavra que nos convoca torna grande o coração de quem escuta e acolhe!
É preciso participar em encontros deste género para conseguir perceber a dimensão da Ordem, mas também para saber o trabalho que dá organizá-los! Um simples exemplo... Para a liturgia de cada dia foi preparado um livro de 236 páginas!
Na parte da manhã decorreu o primeiro dos muitos plenários pensados para estes dias, com a apresentação de todos os irmãos e irmãs participantes. Fizeram-se também os ensaios para as votações, porque o voto é electrónico e convém saber em quais botões carregar!
Os trabalhos da parte da tarde começaram com a exposição, por parte do Mestre, da sua Relatio. Esta, sinteticamente, além dos dados demográficos e afins, teve como eixo três verbos: Estudar, Pregar, Fundar.
Na realidade, a nossa vida dominicana é isso mesmo ou, pelo menos, aspira a sê-lo. Uma vida "irrigada" pelo estudo alicerçado na contemplação. Um estudo que nos exige mais interdisciplinariedade e, por isso mesmo, maior diálogo com as outras ciências. Sem descurar nunca, claro está, o amor à Palavra de Deus. Algo que em algumas comunidades nem sempre é palpável.
Fr. Bruno insistiu na urgência de um diálogo entre a pastoral que fazemos e a reflexão teológica que somos chamados a oferecer e recordou a importância, para todas as províncias, da elaboração de uma planificação apostólica ou projecto apostólico.
Neste campo, Portugal possui desde o ano 2000 a sua planificação. Creio, no entanto, que é um texto que necessita ser revistado com alguma frequência para a sua própria actualização.
O debate por grupos linguísticos, após a apresentação do Mestre da Ordem, teve por base a Relatio e amanhará veremos o resultado do trabalho dos vários grupos.
O dia, no entanto, teve para mim um outro momento "alto". A oração de Vésperas, com a Exposição do Santíssimo e a possibilidade de celebrarmos o Sacramento da Reconciliação.
Não é fácil encontrar palavras para condensar um momento em que somos convidados ao silêncio. Silêncio que o pregador, como nos recordou Fr. Timothy Radcliffe, ex-Mestre da Ordem, tanto precisa!
Do lado do silêncio a escuta. A escuta modifica-nos! E para escutar é necessário, segundo o mesmo fr. Timothy, inteligência, criatividade e caridade. Isto é, tudo fazer para escutar o outro, para o entender e acolher.
Se não todos, muitos dos nossos problemas residem na deficiente escuta que fazemos. No fundo, a nossa falta de escuta resulta também, tantas vezes, da ausência de silêncio dentro de nós.
Que o Senhor conceda a cada um, no seu coração, a alegria de escutar com amor!

domingo, 21 de julho de 2013

A promessa de um amanhã mais radioso!

O que mais temia aconteceu. Perdi, por culpa da TAP, a ligação para Split. São quase 21h e estou na sala de espera para o embarque. A tarde foi mesmo passada no aeroporto de Zagreb (pouco mudou desde a última vez que aqui estive em 1999). Continua pequeno, se calhar demasiado pequeno, para a capital de um país que acabou de entrar no "sonho" europeu... Ou na proporção certa, se optarmos pelo adágio popular, "... o passo conforme a perna!".
Além do merecido almoço ("oferta" da transportadora aérea portuguesa), aproveitei para descansar uns breves instantes, pois roubara várias horas ao sono (para nada, como já se viu!).
Passei também algum tempo em volta dos documentos preparatórios do Capítulo. São muitos relatórios... centenas de páginas com informações, anseios e não poucas preocupações. É natural que assim seja.
A presença destes textos fez-me pensar no evangelho deste domingo, onde Jesus é recebido em casa de Marta e de Maria e a atitude que cada uma assume. Marta atarefada para servir o Senhor e Maria, aos pés do Mestre, para o escutar e contemplar.
A nossa Ordem desde o início assumiu a vocação destas duas mulheres. E os momentos mais luminosos da nossa história foram escritos nesta tensão, no equilíbrio destas duas "vias". O dominicano tem que unir contemplação e acção. Aquela exige esta e esta precisa daquela. Não podem ser entendidas como opostas uma da outra, mas sim verdadeiras aliadas ao serviço da Pregação.
Com toda a probabilidade encontrarei no Capítulo exemplos concretos desta realidade que configura não apenas a história da Ordem, como traça o verdadeiro rosto da nossa missão.
Acabo de receber por mensagem a informação de que uma amiga partiu para Deus. Na verdade, haverá em cada um dos nossos dias um sol que se esconde no horizonte; um amigo que fazendo parte, parte das nossas vidas; um irmão que mesmo partindo deixa no céu a promessa de um amanhã mais radioso!

Entre céu e terra!

Os começos por vezes são difíceis... Pensei escrever este post na Sala de embarque enquanto esperava. O tempo não foi suficiente, nem para terminar o primeiro café do dia, quanto mais para alinhavar estas breves palavras de início de Blog. A chamada para o avião foi rápida, mas levantar voo  nada! Tivemos que sair do avião, voltar à sala de embarque e aguardar que a avaria técnica, entretanto anunciada, ficasse resolvida.
Agora, sentado e em pleno voo, penso nas três horas que ficaram para trás e nas próximas que se avizinham com destino à Croácia!
Sim... Croácia! Pela segunda vez, em quatorze anos, visito este país. A viagem não é de lazer, mas espero tudo fazer para que seja bem agradável!
A razão desta viagem está na participação - representando a Província de Portugal - no Capítulo Geral que se celebrará na cidade de Trogir. A Ordem dos Pregadores (vulgo "Dominicanos"), como instituição religiosa que é, reúne representantes de todas as províncias, de três em três anos, com o objectivo de analisar o andamento das comunidades e oferecer uma reflexão actual para a vida e a missão destas no mundo.
Serão quase três semanas que espero venham a ser de intenso debate, mas sobretudo de encontro fraterno com irmãos de todo o mundo!
Veremos o que estes dias nos reservam... Para já importa pensar que falta uma ligação de avião para Split... pois a inicialmente prevista foi perdida com os atrasos em Lisboa.